É, eu sei que já se passaram mais de 6 meses pra voltar a escrever, tempo suficiente para deixar morna a história da minha viagem a Pernambuco. Todavia, vejo-me na obrigação de dar continuidade a mesma já que prometi isto no texto anterior. Então, segue.
A decisão de ir a Pernambuco veio no momento em que comprava a passagem de retorno a São Luís. Um das opções oferecidas pela GOL em sua página, e mais barata, fazia uma escala no Recife. Percebi que se eu fosse ao Recife pra depois partir para São Luís, estaria gastando pouco mais de cem reais a mais do que se fosse direto e pensei: -por que não? Afinal, ainda me restam quatro dias de férias! Decisão tomada, passagens compradas.
O avião aterrissou. Mala na mão, mochila nas costas, e um aeroporto já bem conhecido por mim de algumas conexões tempos atrás. Pela primeira vez iria ultrapassar a porta da frente e finalmente conhecer a capital do frevo mas..., e agora? Sozinho?
Resolvo ligar para uma grande amiga que estava morando por lá. Além de noiva (entendam este comentário como: possível ciúme do noivo dela), é uma pessoa extremamente atarefada em seu trabalho, não teria tempo para passar o fim de semana comigo, trabalha em uma grande empresa. Me apresentou os principais pontos da cidade, iniciando pela praia de boa viagem, terminando na Localiza. Localiza?
É, já que eu estava ali mesmo, não tinha onde ficar, em uma capital famosa por sua violência, logo tomei mais uma decisão importante, que foi a de ir a Porto de Galinhas. Sim, só eu e Deus.
Aluguei um carro e parti para Porto. Tinha um mapa na mão vagabundo daqueles que são distribuídos gratuitamente no aeroporto. Juntando isto a uma informação errada passada por um frentista filho de uma distribuidora de prazer masculino, e o que aconteceu é que quase fui parar em João Pessoa!
-Meu amigo, você está todo errado! -sorrindo disse o policial rodoviário quando o questionei sobre a distância restante a tal cidade paradisíaca. -O senhor está indo literalmente para o norte quando deveria ir para o sul -completou. Cem quilômetros consertados, estava agora no caminho certo mas muito desconfiado, fazendo o máximo possível para não errar novamente a rota e chegar a tempo de ver pelo menos o pôr-do-sol daquela tarde de sábado de céu limpo.
Nem acreditei quando vi. Lá estava Marcos Freixo na tão sonhada Porto de Galinhas, que tantos amigos já haviam conhecido e elogiado. Cidade simples, pacata, e com praias lindíssimas, até parece saída daquelas novelas da Globo, de histórias de surfistas e pescadores. O mar azul de dar raiva, vai te lascar!
Procurei um lugar para me hospedar porém, não poderia ser muito caro, naquela altura eu já estava preocupado com o tanto que já havia dispendiado desde o Rio de Janeiro. Assim achei uma pousadinha perfeita: cama, chuveiro, e ar condicionado por sessenta reais a diária. Pra melhorar só... Fui cuidar então do "só...". Tomei um banho, vesti uma roupa do tipo "sou surfista desde os sete anos de idade", afinal, eu era um turista.
Saí da pousada e fui ver a praia mais de perto. Entardecendo e arrumado, banho de mar ficou mesmo para o dia seguinte, claro. Mas foi lá que fiquei sabendo de uma apresentação de Gabriel o Pensador liberada pra todo mundo na praia de Maracaípe ali perto. Cheguei no fim mas foi muito bom assim mesmo, pois havia muita gente bonita e a música eletrônica tomou conta da festa patrocinada pela Skol. Conheci uma portuguesa lá, acompanhada de uma amiga também da terrinha.
Aliás, no centro da pequena cidade, estrangeiros somos nós brasileiros. Os idiomas mais diversos tomavam conta das sonoras e tumultuadas conversas a todo redor, e foi lá que deixei as duas portuguesas. Também sozinhas, combinamos de nos encontrar na mais badalada "casa noturna" de Porto, uma tal de Biroska, cuja a entrada custava vinte e cinco reais.
Não tinha nome mais apropriado o tal lugar. Tá certo que os turistas vieram pra ver o calor do Brasil, mas o inferno acho que ninguém tá afim de conhecer não. Era um ambiente tão quente que fazia o valor pago pra entrar parecer ser de mais de mil reais. Acho que eu suava até pelas unhas, e elas então coitadas... dava até pena. Mesmo assim, depois de muita luta e cara feia pra os outros, consegui um espaço próximo a um dos ventiladores industriais. Com muitas vodcas, dançamos e nos divertimos muito, mas após um momento de distração perdi as "raparigas" de vista (calma, lembre-se que eram portuguesas, logo, é o feminino de rapaz). E pra não sair da rotina, de novo, só...
Apesar do horário do meu retorno a pousada, acordei cedo. Fiz um passeio pela praia mas, sem ninguém, era realmente chato demais. Percebi que mesmo com o poder de decisão na mão, de dizer "pra cá" ou "pra lá", sem alguém que você conheça te acompanhando, particularmente é algo que, no mínimo, não estou acostumado. Entretanto, somente nesta situação nova que pude perceber isto. Já estava indo embora quando conheci um guia chamado Luciano.
-Voltar? É domingo cara! Que horas é seu vôo? - perguntou-me o guia. Além de responder que deveria estar no aeroporto às três horas da manhã, expliquei o porquê de querer ir embora. -Mas a praia não falta gente meu amigo! Rapidinho você conhece alguém - ele queria ganhar o "troco" dele claro, mas não deixava de estar correto. O problema é que se eu topasse, ia ter que pagar mais uma diária do carro. -Cara, você veio até aqui, fez esse sacrifício todo, e vai voltar sem fazer um mergulho, sem passear de jangada... Vai falar o quê pros outros?- fui convencido desta vez.
E fiz quase tudo que ele me sugeriu, só não fiz um passeio de bugre pela orla. Anchova frita, cerveja gelada, jangada, mergulho,... Que beleza! Agora sim, isto sim se parece com férias!

O Luciano era um cara bacana. Percebi que ele tratava todos os outros tão bem quanto a mim. A todo tempo pessoas indicadas por ele vinham me perguntar se estava tudo bem, se eu precisava de alguma coisa e todas eram muito simples. Ele me fez conhecer também outros turistas e a sensação de solidão passou enfim. A tarde foi sumindo. Muitos reais depois, era hora de ir embora.
Estava tudo muito bem, até que fiz a do dia: ao tirar a câmera do porta-malas do carro, para registrar uma última foto com a turma do Luciano, bati o porta-malas com a chave do carro dentro. Seja bem-vindo ao inferno Marcos Freixo!
Depois de ligar para a Localiza, por mais que quisessem me ajudar, o custo seria alto demais para mandar um chaveiro, profissão que para um domingo, fim do dia, numa cidade relativamente afastada mas definitivamente interiorana, era difícil demais de se achar mesmo pela redondeza. E então o Luciano me prestou um último favor, me emprestando seu ponteiro de pedreiro, que pra quem não conhece, é uma ferramenta pontiaguda de ferro utilizada para demolir paredes. E assim quebrei o vidro do passageiro às dez horas da noite.

Agora era estrada, a noite, e sem se perder, viu Marcos Freixo?
Mais reais deixados na locadora de veículos, eu já estava dando era graças a Deus por estar no aeroporto mesmo que estivesse sujo, cansado e quase sem dinheiro. Era meia noite. Tentei descansar no saguão. Tenso demais, só relaxei mesmo quando entrei no avião que pra minha surpresa ia fazer escala aonde? Rio de Janeiro! Ai...
A conexão no aeroporto Tom Jobim demorou mais três horas após a aterrissagem. O avião ainda iria a Fortaleza pra enfim chegar a capital do Maranhão. Cochilei no saguão entre as cadeiras, fazendo da minha mala um travesseiro. No avião, ainda mais surpresas: diretores e gerentes da minha empresa estavam no mesmo vôo. Eu estava uma lástima. Um deles veio conversar comigo, pois me conhecia, e a ele contei tudo que aqui está escrito, sempre frisando a palavra "Férias", afinal, eles que mandaram pagar isso tudo.
Um abraço pra você. Na próxima eu vou contar mais histórias deste tipo. Até! ;)